
Em maio de 2024, o Museu Estadual do Carvão foi atingido pela enchente. Localizada em Arroio dos Ratos, a instituição do governo do Estado, vinculada à Secretaria da Cultura (Sedac), é considerada um símbolo da região Carbonífera, guardando a memória da mineração de carvão, de seus trabalhadores e de suas famílias. Em razão da inundação, milhares de documentos e fotografias ficaram submersos, exigindo um esforço coletivo de técnicos da Sedac e voluntários para resgatar centenas de caixas e maços de papéis que teriam sido perdidos caso permanecessem no local.
Ao longo de dois anos, o acervo com cerca de 1.400 fotografias foi tratado pela empresa Âmbar Cultural, do Rio de Janeiro, que restaurou, conservou e digitalizou o conjunto. O investimento da secretaria foi de R$ 273 mil, oriundos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs). No dia 29 de maio, Sandra Baruki, Marcia Mello e Maria Julia Fróes, especialistas em conservação de fotografias da Âmbar, estiveram na Sedac, em Porto Alegre, para apresentar o resultado.
O secretário da Cultura, André Kryszczun, elogiou o trabalho da equipe: “A restauração do acervo fotográfico do Museu do Carvão, patrimônio cultural e histórico importantíssimo da Região Carbonífera, demonstra como a cooperação entre diferentes setores da sociedade, baseada no conhecimento técnico, pode ajudar a enfrentar as dificuldades impostas pelas mudanças climáticas e por eventos meteorológicos extremos. Estamos orgulhosos deste resultado”, destacou o secretário.

Missão desafiadora
A recuperação das fotografias impactadas pela enchente demandou um trabalho minucioso de análise, uma por uma, para identificar os danos. Sandra recorda que foi necessário vir ao Rio Grande do Sul para fazer os primeiros testes e definir o tratamento adequado. “O compromisso ético e profissional definiu meu aceite, ciente da tragédia e da importância desse trabalho. Participar do tratamento pós-resgate foi um compromisso de cidadania”, relatou. “Em mais de 30 anos de profissão como conservadora-restauradora de fotografia, destaco este trabalho como um dos mais relevantes na minha trajetória profissional, pelos resultados alcançados. A experiência foi singular e ajudará em futuras decisões”, comentou.
A especialista recorda que as imagens estavam sujas com lama e contaminadas pela água. A solução foi levá-las para o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares ( IPEN ), autarquia da Universidade de São Paulo (USP), para que equipamentos de radiação ionizante pudessem matar microrganismos danosos ao material.

Cuidado com a memória
Após a desinfecção em São Paulo, as imagens foram transferidas para um ateliê de tratamento no Rio de Janeiro, onde uma equipe de profissionais aguardava para realizar a lavagem e remoção da sujeira, com reparos das dobras e rasgos. O tratamento de alguns itens foi mais delicado: fotografias do século XIX e início do século XX continham albumina ou prata, elementos altamente afetados pela umidade. Além disso, grande parte estava com as embalagens originais de papel grudadas. Sem colocar o conteúdo em risco, as imagens foram novamente submersas em água para retirar o papel. Em seguida, secas e planificadas.
Para a especialista Maria Julia Fróes, o trabalho foi um sucesso. Segundo ela, acervos atingidos por desastres naturais tornaram-se uma realidade e é um dever enquanto profissional estar preparada para proteger e salvaguardar bens culturais diante das mudanças climáticas.
Maria também compartilha uma peculiaridade da conservação fotográfica: é uma profissão que lida com momentos históricos. “Ter a oportunidade de trabalhar com esse acervo foi um privilégio, principalmente ao percebermos que a comunidade está representada nele. Vemos jovens, crianças, idosos, peças de teatro, trabalhadores, visitas escolares e atividades promovidas por um museu que se preocupa em preservar essas memórias tão preciosas”, afirmou.

Novos suportes físicos e virtuais
Após serem higienizadas, as imagens foram acondicionadas em pastas verticais, confeccionadas em material que evita reações químicas. Para garantir que as futuras gerações tenham acesso ao conteúdo, as fotografias foram digitalizadas em alta resolução e serão disponibilizadas em breve na plataforma Acervos da Cultura .
Um detalhe interessante é que algumas delas foram escaneadas ainda molhadas, com as embalagens grudadas. Conforme explica Mauro Domingues, preservador audiovisual e fotógrafo da Âmbar Cultural, o procedimento objetiva manter o equilíbrio das cores originais. Molhado, o papel da embalagem (que ficou impregnado com detalhes da imagem) fica translúcido e possibilita recuperar as informações.
“A fragilidade das fotografias atingidas por água e lama foi uma experiência nova no que diz respeito à etapa de digitalização. Foi preciso submergi-las em água e, com rígido controle, digitalizá-las ainda molhadas para eliminar a opacidade da embalagem e resgatar as informações contidas no original. Assim, foi possível recuperar um pouco da densidade, do equilíbrio dos tons e alguns detalhes”, completou.
Resiliência climática
Com mais de quatro décadas dedicadas à fotografia, Marcia afirma que tratar o acervo do Museu do Carvão exigiu tranquilidade e coragem para tomar as decisões certas. “Restituir vida a esses documentos históricos tão importantes para todos os gaúchos foi uma experiência única e ficará para sempre como um dos maiores desafios que enfrentei na minha já longeva carreira. Com o apoio da Secretaria da Cultura e da equipe do Museu, deixamos um importante legado para as novas gerações”, finalizou.
Texto: Ascom Sedac
Edição: Secom