Sexta, 15 de Maio de 2026
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UEPG lamenta falecimento de Eduardo Gusmão dos Anjos Sobrinho

É com pesar que a Universidade Estadual de Ponta Grossa lamenta o falecimento do servidor aposentado Eduardo Gusmão dos Anjos Sobrinho, ocorrido ne...

Por: Editoração Fonte: UEPG
15/05/2026 às 15h16
UEPG lamenta falecimento de Eduardo Gusmão dos Anjos Sobrinho
Foto: Reprodução/UEPG

É com pesar que a Universidade Estadual de Ponta Grossa lamenta o falecimento do servidor aposentado Eduardo Gusmão dos Anjos Sobrinho, ocorrido nesta sexta-feira (15). Jornalista, amante das artes e da fotografia e figura reconhecida na comunicação da região, Gusmão atuou de 1980 a 2011 na antiga Assessoria de Comunicação da instituição (Ascom), além de ser aluno da primeira turma do curso de Jornalismo. Velório e sepultamento acontecem nesta sexta-feira (16), em Castro.

O Gusmão foi o responsável por fundar um jornal dentro da Universidade, chamado Campos Gerais. É o que recorda o reitor da UEPG, professor Miguel Sanches Neto. “Ele tinha uma relação muito forte com a UEPG. Quando eu cheguei em Ponta Grossa, em 1993, sabendo que eu já escrevia para alguns jornais, ele imediatamente me chamou para escrever no D’Ponta e no Jornal Campos Gerais. Então, nós nos tornamos amigos pelo jornalismo, pela literatura, e sempre fomos muito próximos. A Universidade inteira está em luto, foi uma grande figura do jornalismo paranaense”, lamenta.

“É uma grande perda”, expressa o professor Nelson Silva Júnior, diretor de Assuntos Culturais da Pró-Reitoria de Extensão da UEPG. O professor conheceu Gusmão em 1983, durante o Fenata. “Uma pessoa extremamente atuante, que acompanhava os grupos, as pessoas, fazia todo o trabalho de divulgação e de recepção dos grupos”, pontua. “Ele tem um papel fundamental na história e da memória do Fenata. Inclusive, no ano passado, ele entregou materiais para a Proex. Alguns catálogos e outras coisas que ele tinha em casa, tanto do Fenata quanto do FUC”, conta Silva Júnior. Em 2024, durante a 52º edição do Fenata, Gusmão recebeu uma homenagem pela sua trajetória no Festival.

Foto: Reprodução/UEPG
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Foto: Reprodução/UEPG
Foto: Reprodução/UEPG

“Meu coração está super pequenininho e triste. Eu fui professora do Gusmão, mas mais que professora, nós somos colegas de trabalho e fomos muito amigos”, relata a professora aposentada Vanessa Zappia. “O Gusmão era uma pessoa maravilhosa, um homem iluminado, ele tinha uma cultura muito grande, ele era generoso para caramba, um encanto de pessoa”. Vanessa relembra que Gusmão contribuiu muito para a instituição e para a cidade em sua profissão. “Ele era uma pessoa solidária com as pessoas e muito competente, a perda dele é grande”.

“Os Campos Gerais perdem um dos jornalistas mais completos, além de um grande amigo”, ressalta o jornalista Sandro Carrilho, egresso da primeira turma do curso de Jornalismo da UEPG. “Sua contribuição vai além da UEPG. [Foi] membro da Academia de Letras dos Campos Gerais, fundou o jornal cultural Ponta a Ponta, mais tarde passando a se chamar Revista D’ Ponta, e foi um dos colaboradores do jornal Página Um, hoje Página Um News. Eduardo Gusmão deixa um legado importante para o jornalismo e para a cultura. Sua trajetória sempre será lembrada pelo compromisso com a informação, pela valorização da literatura e pela dedicação à comunicação regional”.

Eliane Bernardo é da primeira turma do curso de Jornalismo e estudou com Gusmão. “Fomos grandes amigos. Desde que nos encontramos no curso, já nos identificamos de cara, fizemos grandes parcerias enquanto estávamos juntos naquela caminhada estudantil”, relembra. Juntos, eles criaram o primeiro Centro Acadêmico do Curso de Comunicação Social/Jornalismo da UEPG, atuando juntos por melhorias no curso, com encontros entre alunos. “Fui sua estagiária na Assessoria de Imprensa da UEPG, onde aprendi muito com ele, me ensinou a fazer reportagem e a redigir textos, me dava dicas preciosas”. Ao longo desses anos todos, eles nunca se afastaram: “era antenado, dedicado ao jornalismo, à escrita, um cara culto, bem informado. Foi uma grande perda para mim, eu adorava ele, a primeira turma tem um grupo no WhatsApp e nos falamos com frequência, agora vai faltar o Eduardo Gusmão com sua gentileza, seu carinho por todos nós. A gente estava desde o ano passado tentando realizar um encontro, esperando a conciliação das agendas de todos para nos vermos. Não deu tempo. Que pena, ele será lembrado para sempre e estará presente no meu coração”.

Como um grande admirador das artes e da literatura, Gusmão atuou nos últimos anos na Academia de Letras dos Campos Gerais. Para a presidente da ALGC, Neuza Mansani, a perda é de um grande amigo. “Ele sempre nos orientou nos textos escritos, nos encantando com seus textos nas revistas, sempre alegre, brincalhão e amoroso. Confrade Gusmão, amigo da Universidade Estadual de Ponta Grossa e da Academia de Letras dos Campos Gerais, leve com você todo o carinho e gentileza com que nos envolvia. Ninguém o substituirá, como pessoa. Os anjos o estão acolhendo sua alma no céu com todo brilho”.

A contribuição para a comunicação da UEPG

Foto: Reprodução/UEPG
Foto: Reprodução/UEPG
Uma conversa com Gusmão poderia durar horas. E foi sendo esta figura comunicativa que ele ingressou na comunicação da UEPG, em 1980. À época formado em Letras e em busca de emprego, ele deixou um currículo na UEPG e, em fevereiro daquele ano, entrou como redator na Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários, até que o vice-reitor, Waldir Silva Capote, o convidou para trabalhar no gabinete da reitoria. Era uma atuação embrionária do que seria um setor de assessoria de comunicação institucional.

No começo, Gusmão atuava sozinho, contando com um fotógrafo oficial contratado, Germano Koch. Seu superior era Acir Camargo, chefe de gabinete da reitoria. O trabalho era realizado com uma máquina de escrever e nada mais. A rotina consistia na produção de conteúdo datilografado, que depois era mimeografado e entregue aos jornais por uma Kombi, juntamente com as fotografias reveladas.

O servidor ainda criou e produziu o CAC Informativo, um jornal com notícias da UEPG, entre 1980 e 1982. Quando Evaldo Podolan assumiu como reitor, em 1983, surgiu a ideia de criar um curso de Jornalismo. Para a comissão encarregada da montagem da grade curricular e demais encaminhamentos, foram convocados os professores Antônio Carlos Frasson, do Departamento de Educação Física, Zenilda Batista Bruginski, do Departamento de Serviço Social, além do próprio Gusmão. A comissão baseou-se no que havia de mais moderno no ensino de Jornalismo no Paraná para montar a grade, em 1983. O primeiro vestibular do curso ocorreu em 1985, e Gusmão ingressou na primeira turma como aluno.

Ele conciliava os estudos à tarde com o trabalho pela manhã e, às vezes, à noite. Em 1986, a equipe da Assessoria de Relações Públicas e Imprensa, denominação do setor na época, era composta por Gusmão, Acir Camargo (ainda como chefe), um fotógrafo contratado e a professora Vanessa Zappia. Além da professora Vanessa Zappia, a equipe contava também com o auxílio de três a quatro estagiários do curso de Jornalismo. Naquela época, a assessoria havia crescido e precisou ser instalada em um prédio alugado no centro da cidade. Com uma equipe maior, foi possível a circulação do jornal semanal Campus Gerais, que teve tiragem até 2010. No final dos anos 80, Neomil Macedo integrou a equipe da Assessoria de Comunicação (Ascom) – atual Coordenadoria de Comunicação (Ccom). Essa foi a época da transição das máquinas de escrever Olivetti para os computadores. A UEPG treinou servidores de vários setores para lidar com as novas tecnologias. A composição da assessoria permaneceu praticamente a mesma até os anos 2000. Nessa época, Gusmão se afastou para prestar serviços na Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, retornando em 2002 e permanecendo na assessoria da UEPG até sua aposentadoria, em 2011.

Foto: Reprodução/UEPG
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Histórico como comunicador

Foto: Reprodução/UEPG
Foto: Reprodução/UEPG
O servidor é natural de Castro, nascido em 6 de agosto de 1953. Desde a adolescência, aspirava ao jornalismo – tanto que colaborou com jornais estudantis de sua cidade ainda no Ensino médio. Contudo, como a graduação na área à época só existia em Curitiba e Londrina, seu pai o desaconselhou. Naquele tempo, as universidades cobravam mensalidades que, embora fossem valores consideravelmente inferiores aos de mercado, dificultavam o acesso de muitas famílias ao ensino superior. Diante disso, o genitor sugeriu que ele cursasse algo na própria UEPG, pois assim poderia arcar com seus estudos. Foi assim que Gusmão ingressou na faculdade de Letras, curso que concluiria em 1975.

A vida lhe reservava uma surpresa: seu pai faleceu em 1976, e Gusmão precisou começar a trabalhar. Seu primeiro emprego foi justamente em uma revista de Castro, sua cidade natal, o que o obrigava a viajar todas as noites de ônibus para Ponta Grossa. Fernando Vasconcellos e Izidro Guedes foram quem o ajudaram, pois ambos eram proprietários da VUP, a primeira revista de Castro, recém-criada na localidade. Na VUP, onde foi contratado em julho de 1976, Gusmão pôde conhecer boa parte do Paraná e algumas cidades do Brasil. A primeira capa marcante, logo no lançamento da publicação, foi com Regina Duarte, em uma viagem de carro até São Paulo, capital paulista onde ela atuava no teatro, já consagrada como atriz de TV.

Seu chefe, Guedes, decidiu expandir o alcance do periódico e, a partir de então, Gusmão passou a viajar constantemente, cobrindo eventos importantes e buscando entrevistas com personalidades que aceitassem concedê-las. Foi assim que conseguiu emplacar Elke Maravilha como capa e ainda entrevistou Ronnie Von. Entrevistou também Rita Lee durante um período em que a cantora passava por reabilitação química. Em 1979, a revista já tinha alcance nacional, pois os contatos de Guedes, que também possuía uma construtora, garantiam sua circulação pelas principais cidades do país. Em época de ditadura militar, a VUP decidiu abrir espaço para a discussão, e coube a Gusmão criar uma coluna intitulada “Abertura”. Nela, publicava matérias e oferecia espaço para comentários de figuras dos meios político, estudantil, artístico e cultural de Ponta Grossa e do Paraná, em um tom contrário ao Regime ainda vigente.

A gota d’água ocorreu quando Gusmão foi cobrir um seminário em Curitiba, que deu voz a vítimas de tortura pelos agentes do Estado. Na ocasião, ele colheu histórias e depoimentos de pessoas que haviam sofrido violência ou perdido parentes durante o regime militar. Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde se tornaria presidente do Brasil, e Roberto Requião Martins foram alguns dos entrevistados daquela edição também. Gusmão escreveu um artigo intitulado “Estritamente confidencial”. Como já ocupava o posto de editor da publicação, decidiu publicar o conteúdo, mesmo ciente de que a censura oficial poderia puni-lo posteriormente. Porém, ao chegar à gráfica, o proprietário do local se recusou a rodar o material, alegando que poderia ter problemas. Houve uma discussão, e o texto acabou não sendo publicado. O jornalista ligou para Guedes, que pediu que esperasse seu retorno do Rio de Janeiro, onde se encontrava a trabalho. Ao regressar, Guedes revelou que Gusmão, por conta de seus escritos, já estava na mira dos militares e que alguns deles, à paisana, haviam estado na gráfica para inspecionar o material que seria publicado sobre o Congresso de 1979. Em agosto daquele ano, a revista encerrou suas atividades.

A UEPG presta solidariedade aos familiares, amigos e colegas de Gusmão.

Texto: Helton Costa, Jéssica Natal, William Clarindo | Fotos: Arquivo Pessoal e da UEPG

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