
Às vésperas de sua terceira edição, o Programa Daqui pra o Mundo vai levar 150 estudantes da rede estadual para um intercâmbio na Inglaterra, com tudo custeado pelo Governo de Alagoas.
Enquanto os novos selecionados organizam malas e documentos em uma contagem regressiva, revisitamos nesta reportagem especial a experiência de Massimo, Samuel, Graziele e Adelmo, que, em 2025, participaram do intercâmbio na cidade de Brighton, um dos destinos mais procurados pelos ingleses no verão em virtude de suas praias e efervescência cultural.
Para os 20 jovens alagoanos que ficaram na cidade, a escola Bayswater College (antiga Eurocentres) foi motivo de inspiração.
Os relatos desses alunos inspiram e cativam os próximos viajantes, que futuramente irão relatar sua história patrocinada pelos seus esforços e pelo Governo de Alagoas, através do maior programa de intercâmbio da história da rede estadual.
Cuscuz e o sonho de ensinar
Massimo Paulo, de 17 anos, partiu de Santana do Ipanema carregando um otimismo contagiante e um objetivo claro. Aluno da Escola Estadual Professora Laura Maria Chagas de Assis, ele sempre viu na língua inglesa uma porta para o mundo, mas descobriu em Brighton que a educação é a ferramenta capaz de transformar realidades por meio de pequenas atitudes.
A rotina de Massimo era marcada pelo contraste. Acordar sob o frio das manhãs do verão britânico era o primeiro sinal de que a vida havia mudado. Ele viveu a experiência completa de morar com duas ‘host families’ distintas. Uma delas, de Camarões, trouxe um acolhimento espiritual e motivacional que o marcou profundamente. "Conversávamos muito durante o jantar sobre o Brasil, nossos costumes e famílias. Levei até pacotes de fubá para cozinhar cuscuz para eles. Foi um pedaço do Nordeste em solo britânico", relembra o estudante.
Na Bayswater, Massimo sentiu sua fluência crescer por meio de debates e jogos. Para ele, o ponto alto foi a visita às Seven Sisters, os icônicos penhascos de giz que serviram de cenário para os filmes de Harry Potter, saga da qual é fã. "A imersão revelou as oportunidades que o mundo oferece. Hoje, estou decidido a ser professor de inglês e buscar a fluência total", afirma o jovem, que transformou a ousadia de viajar em um plano de carreira.
Choque cultural

Natural de Arapiraca, Samuel José, 17 anos, é o retrato da curiosidade intelectual. Aluno da Escola Estadual Professor José Quintela Cavalcanti, de Arapiraca, ele divide sua paixão entre a geografia, a fotografia e a análise de temas mundiais. Em Brighton, sua lente capturou muito mais do que paisagens.
Sua ‘host family’, um casal de idosos amáveis, proporcionou um dos momentos mais “surreais” da viagem: o cuidado com raposas que visitavam o quintal da casa. "Eles eram muito receptivos, contavam histórias de suas viagens de juventude e do orgulho que tinham dos netos no futebol", conta Samuel. Na escola, as aulas ao ar livre e as oficinas de desenho ajudaram a quebrar a barreira da timidez.
Para os intercambistas de 2026, Samuel aconselha não se deixar levar pela insegurança e aproveitar a experiência ao máximo. "A gente sempre se questiona se vai valer a pena, se vamos nos adaptar. Mas o medo vai embora e sobra só a saudade. Eu não sou mais a mesma pessoa. Hoje entendo que viver o momento é o que realmente importa", reflete o estudante.
Independência e a calmaria de Rottingdean
Graziele dos Santos, de 17 anos, veio de Água Branca representando a Escola Estadual Monsenhor Sebastião Alves Bezerra. Criativa e amante da natureza, ela viu no intercâmbio a oportunidade de decidir seus rumos após o Ensino Médio. O que mais a surpreendeu não foi a grandiosidade de Londres, mas a pontualidade britânica e a eficiência dos ônibus de dois andares, de onde apreciava a vista da cidade.
Graziele encontrou seu lugar favorito na vila de Rottingdean. "Não é extravagante, mas me cativou pelo silêncio, pelo moinho de vento e pelas cafeterias históricas. Foi lá que parei e pensei: 'Nossa, eu realmente estou na Inglaterra'", conta. Ela também se adaptou rapidamente à autonomia europeia, como o sistema de self-checkout nos mercados, onde o próprio cliente passa suas compras.
A maior mudança, porém, foi interna. "Eu tinha medo de ir a qualquer lugar sozinha. Passar um mês longe da família me deu uma segurança que eu não conhecia", explica. Para os próximos viajantes, ela deixa um aviso prático: "Aproveitem cada segundo, não pensem em descansar. O foco é a imersão. E lembrancinhas? Só no final da viagem!". Ensina.
A conquista dos oito quilômetros
Adelmo Candido, de 18 anos, aluno da Escola Estadual Muniz Falcão, em Cacimbinhas, é fascinado por sistemas e estruturas. Seja na matemática ou na gramática, ele busca entender como as peças se encaixam. Em Brighton, sua rotina era cronometrada. Acordava às 6h30, tomava o café preparado por suas ‘hosts’ (brasileiras radicadas na Inglaterra) e corria para o ônibus.
Sobre a estadia, ele comenta: “A recepção não poderia ter sido melhor. Minhas anfitriãs falavam apenas inglês conosco para garantir a imersão, mas o café da manhã com toque brasileiro me fazia sentir em casa", relata Adelmo. Na escola, ele se destacou nos testes semanais de proficiência, subindo de nível rapidamente. Para ele, a regra de "proibido falar português" foi o que realmente destravou seu idioma.

A missão de formar cidadãos globais
Acompanhando de perto cada passo dessa jornada, a monitora Mariana Loureiro, mestre e doutoranda em Estudos Literários, destaca o papel social do programa. Professora da rede estadual desde 2022, ela testemunhou a quebra de paradigmas dentro da sala de aula. "Muitos alunos acham que nunca vão sair do país por serem da escola pública. O intercâmbio destrói essa ideia e planta uma esperança real", afirma.
Mariana descreve Brighton como uma "cidade-abraço", onde a diversidade social facilita o crescimento cultural. Ela acompanhou a evolução de alunos que saíram do nível básico para o avançado em tempo recorde e viu a integração total com outras nacionalidades.
Para ela, passeios como o Píer de Brighton, o Royal Pavilion e o i360 são fundamentais, mas a verdadeira bagagem é a imaterial. "Eles voltam cidadãos do mundo. A democratização do acesso a essas experiências é o maior retorno que podemos dar para a sociedade alagoana", finaliza Mariana.