
O Dia do Trabalhador é celebrado nesta sexta-feira, 1º de maio. Mas a data não é reservada apenas à conscientização em torno das conquistas trabalhistas, sendo marcada também pelo Dia da Literatura Brasileira, em homenagem ao nascimento de José de Alencar, autor de clássicos como 'Iracema' e 'O Guarani'. Em Alagoas, a Imprensa Oficial Graciliano Ramos conta com um acervo que reúne diversas obras de escritores nacionais, a exemplo do próprio Alencar, incentivando, permanentemente, o hábito da leitura.
Prova disso é que a editora do Governo de Alagoas lançou, em 2012, uma das últimas obras do escritor, advogado, jornalista e político cearense - que passeou pelos mais variados estilos, do romance indianista ao realismo, evidenciando, assim, sua inestimável contribuição à literatura. Publicado em 1875, ‘Senhora’ é o segundo título da coleção de livros de bolso Para Todos, que reúne títulos com formato de baixo custo. A coleção da Imprensa Oficial busca democratizar o acesso ao conhecimento, mantendo, porém, as dimensões clássicas, além de conferir a atenção necessária à capa e ao projeto gráfico.
Em Senhora, José de Alencar discute o casamento como forma de ascensão social, retratando, entre outros aspectos, a questão do "dote", que funcionava como uma garantia financeira.
Na primeira parte do livro, denominada "O Preço", ele apresenta a personagem Aurélia Camargo como uma jovem de origem humilde, traída pelo noivo, Fernando Seixas, que a trocou por uma mulher com maior dote. Tempos depois, Aurélia recorre à herança que recebera de avô para e punir Fernando pela atitude, negociando a união com ele, que, endividado, decide se casar sem saber quem é a pretendente.
"Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, d. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade. Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina. Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse", escreve o autor, destacando a postura – de inversão da lógica patriarcal – de uma das mais icônicas personagens da literatura brasileira.
José de Alencar, portanto, promove uma reflexão sobre o quanto o dinheiro e a ganância podem interferir nas relações humanas, equiparando o vínculo conjugal a uma transação comercial, ao criticar certos valores e comportamentos da sociedade carioca.
Considerado o pai do Romantismo no Brasil, o escritor chamou a atenção de nomes como Machado de Assis. Ele faleceu, no Rio de Janeiro, em 1877, com apenas 48 anos de idade, vítima de tuberculose.
Presidente da Academia Alagoana de Letras (AAL), o escritor Alberto Rostand destaca o legado de José de Alencar e o simbolismo da data para a disseminação do conhecimento. "O primeiro dia do mês de maio é, de fato, um dia iluminado. Afinal, mais do que um meio de subsistência, o trabalho também é fonte de transformação social. E poder homenagear um escritor como José de Alencar nessa mesma data é ainda mais gratificante, porque ele foi um grande semeador de ideias. O país se descobriu nas suas páginas, seja com o indianismo, em 'Iracema', ou nos romances urbanos em que tão bem descreveu costumes e tradições locais. Por isso é que ele merece todas as homenagens possíveis", afirma Rostand.
O também engenheiro civil lembra que a AAL tem assento no Conselho Administrativo da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, que, para ele, desempenha um papel indispensável ao valorizar a produção literária, contribuindo, decisivamente, à formação de cada vez mais leitores.
"Leitura é sinônimo de conhecimento, que é sinônimo de qualidade de vida. O poeta é alguém que empresta alma às palavras, inclusive em situações adversas, e José de Alencar também o fez com maestria. Portanto, a homenagem que a editora presta ao escritor é resultado desse compromisso que a Academia [Alagoana de Letras] também assume, que é o de disseminar a nossa cultura", reforça o escritor. Ele destaca, também, o alcance de projetos como 'Livros que libertam' – que permite aos reeducandos do sistema prisional a remição de pena por meio da leitura – e de lançamentos previstos para o mês de maio, a exemplo de concurso de poesias e contos, além de podcast que será exibido em canal de TV aberta, com direito a episódio no qual acadêmicos vão narrar fatos sobre a história de Alagoas.