
Motivado a participar de uma edição do Clube do Livro “Há Controvérsias”, me deparei com a obra Cartas a uma negra, de Françoise Ega. Antes de seguir, deixo um convite sincero: se você nunca participou de um clube do livro, não perca essa oportunidade. É um espaço potente de trocas, escuta e aprendizado — daqueles que ampliam não apenas o repertório, mas também o olhar sobre o mundo.
Cartas a uma negra foi uma descoberta que se revelou uma grata surpresa. A obra parte de um encontro simbólico: Ega, trabalhadora doméstica em Marselha, na França, encontra em uma edição da revista Paris Match uma matéria sobre Carolina Maria de Jesus e seu Quarto de despejo. A identificação é imediata — e profunda.
A partir desse reconhecimento, nasce uma correspondência que nunca seria enviada, mas que atravessa fronteiras. O livro é composto por cartas escritas entre 1962 e 1964, dirigidas a Carolina, que se torna sua leitora ideal. Mais do que um diálogo imaginado, trata-se de um encontro entre experiências semelhantes, marcadas pela desigualdade, pela racialização do trabalho e pela luta por dignidade.
Ao longo das cartas, acompanhamos relatos do cotidiano de mulheres negras que trabalhavam como empregadas domésticas na França. São narrativas que evidenciam relações profundamente desiguais: de um lado, patroas autoritárias, muitas vezes indiferentes; de outro, trabalhadoras submetidas a jornadas exaustivas, sem acesso a direitos básicos como saúde, descanso ou condições dignas de moradia.
O que poderia ser apenas um registro da dureza da vida se transforma, nas mãos de Ega, em literatura potente. A escrita ganha densidade, variedade de tons e uma força expressiva que aproxima o livro de um romance. Personagens surgem, histórias se entrelaçam e a tensão central — entre dominação e resistência — se torna cada vez mais evidente.
Mas há algo ainda mais profundo nesse percurso: a escrita como instrumento de consciência e transformação. Ao narrar, Ega não apenas denuncia — ela se reconhece, se posiciona e se fortalece. Esse movimento a conduz a um engajamento mais ativo na luta por direitos, tornando-se uma voz relevante na sociedade civil francesa.
Ler Cartas a uma negra é, portanto, mais do que acessar um documento literário. É testemunhar um diálogo entre duas mulheres negras, de contextos distintos, mas atravessadas por experiências comuns. É perceber como a escrita pode construir pontes — entre países, entre histórias, entre lutas.
E talvez seja justamente isso que torna essa obra tão atual: a compreensão de que, apesar das distâncias, ainda há muito a ser dito, ouvido e transformado.
Para quem se interessou pela leitura, fica o convite: no dia 29/04 (quarta-feira), das 17h30 às 19h00, acontecerá o encontro do Clube do Livro mediado pela professora Maria Flávia Barbosa. Além da troca rica de ideias, haverá emissão de certificado complementar. Mais informações estão disponíveis no Instagram @nossadm.cefetmg.
Quem sabe essa não é a sua próxima leitura — e também o seu próximo encontro?