
Folhas, frutas, ração, fígado, ovos e vísceras bovinas. A lista de alimentos servidos diariamente aos cerca de200 animais em cativeiro do Bosque Rodrigues Alvesrevela uma rotina que começa cedo e precisa dar conta de um público diverso: aves, cágados, macacos-prego, cobras, peixes, quatis, capivaras, jacarés e jaguatiricas.
Às 7h, oscinco tratadoresque atuam no local começam a preparar a alimentação. Meia hora depois, os primeiros animais recebem as refeições. Sãomais de 150 quilos de comidapreparados todos os dias, sob oplanejamento de dois biólogos e três veterinárias.

É umadiversidade de “pratos”para espécies comnecessidades diferentes. O biólogo Tavison Guimarães, que trabalha no Bosque há 14 anos, explica que cada grupo de animais segue umadieta específica, definida a partir de preferências alimentares e do que encontrariam nos habitats naturais.
Apesar da presença de proteínas, folhas e frutas são os alimentos que mais aparecem na dieta dos animais.
O Bosque Rodrigues Alves completa143 anos nesta terça-feira(25). Em meio à rotina de cuidados, alimentar os animais vai muito além de simplesmente por comida à disposição. Todos os dias, biólogos e veterinários desenvolvem o chamado“enriquecimento alimentar”, uma estratégia que dificulta o acesso à comida para estimular movimentos ecomportamentos naturais.

Na natureza, encontrar alimento exige esforço. No zoológico, a equipe tentareproduzir parte dessas dificuldades.
A comida, portanto, nem sempre está à vista ou ao alcance imediato. A intenção é fazer com que o animalprocure, manipule e se esforcepara conseguir o alimento.
Para os animais de vida livre que vivem no Bosque, a proximidade com um habitat natural é ainda maior.Cutias, pacas, cisnes, gaviões e preguiçassobrevivem com os frutos das árvores e as plantas disponíveis no próprio espaço.

Entre os animais que conquistaram a atenção dos visitantes, cada um também tem as próprias preferências.
O famoso quati Nando Reis tem o ovo como prato preferido. Também come frutas, principalmente banana, mamão e melancia. A alimentação é oefertada uma vez ao dia.
ACobra Milton, por sua vez, adoracamundongos. Mas, por ter metabolismo lento, a refeição é servida apenas acada 15 dias.
Omacaco Fugênciogosta de couve, mas a dieta também incluiração, frutas e legumes.

E há quem nunca diz não à comida no espaço. A mais gulosa do Bosque é a Cap30, nome dado àcapivaraque chegou ao recinto em agosto do ano passado, próximo à Conferência das Nações Unidas realizada em Belém.
SeCap30 é conhecida pelo apetite,os macacos de cheirosão os que mais dão trabalho quando o assunto é alimentação. São os mesmos que costumampular os muros do Bosquee circular pelas proximidades da almirante Barroso.

Do lado de fora, eles “aceitam” quase tudo.Pipoca, coxinha, pirulito. Alimentos oferecidos pela população acabam entrando na dieta desses animais, mesmo sendo uma ameaça para a saúde dos bichos.
Para o biólogo, o problema vai além de uma refeição inadequada aos animais que são sensíveis.
Alimentar os animais pode desencadear uma série de problemas. Segundo Tavison, um deles é fazer com que o animal seacostume aos produtos industrializadose passe a procurar esse tipo de alimento.
Os macacos de cheiro já chegaram a roubar comida das pessoas. O hábito também pode provocarproblemas clínicos, comodiabetes e aumento do colesterol, além de outras enfermidades.
Por isso, manter os animais longe da comida oferecida pelos visitantes se tornou parte do trabalho cotidiano do Bosque.
Para evitar que a população alimente os animais, o Bosque Rodrigues Alves realizacampanhas na mídia, instala placas de aviso ao redor do espaço e orienta estudantesdas escolas que visitam o local.
No caso dos macacos de cheiro, equipes do Bosque tambémdistribuem panfletos à populaçãoque vive ou circula no entorno. O material explica por quenão se deve oferecer comida aos animais.
Outra estratégia foi criarpontos de alimentação para os macacos de cheiroem locais que podem ser vistos pelo público. Há comedouros próximos ao portão da travessa Perebebuí e da parada de ônibus da avenida Almirante Barroso.

A mudança de comportamento também passa pelas famílias que frequentam o Bosque.
Sarah Monteiro, de 43 anos, administradora e moradora do bairro do Marco, costuma visitar o espaço com o marido, Wladimir Gales, e o filho de quatro anos, Miguel Levi. Ela conta que ensina o menino a não oferecer alimentos aos animais.
No Bosque, alimentar um animal não é apenas oferecer comida. É interferir em umarotina cuidadosamente planejada para que cada espécie receba aquilo de que precisae, sempre que possível, tenha de buscar o alimento como ocorre na natureza.