
Há pouco mais de dois anos, o Pará se tornou o primeiro Estado brasileiro a instituir a educação ambiental como componente curricular obrigatório em toda a rede pública estadual de ensino. Desde então, o tema passou a integrar a rotina de estudantes e professores em cerca de 950 escolas, levando para as salas de aula discussões e boas práticas sobre sustentabilidade, mudanças climáticas, conservação ambiental, cidadania e os desafios enfrentados pela Amazônia.
Implantada por meio da Política de Educação Formal para o Meio Ambiente, Sustentabilidade e Clima, instituída pela Lei Estadual nº 9.981/2023, a iniciativa foi construída considerando as especificidades de um território que reúne uma das maiores biodiversidades do planeta e uma ampla diversidade de povos, culturas e modos de vida. A proposta aproxima os estudantes das questões ambientais presentes em seus territórios e estimula a compreensão das relações entre sociedade, desenvolvimento e meio ambiente.
Em dois anos de implementação, a política passou a alcançar todas as escolas da rede estadual e já foi incorporada por cerca de 80 municípios paraenses. Atualmente, aproximadamente 3 mil professores atuam diretamente com o componente curricular, enquanto 1.200 profissionais concluíram especialização em Educação Ambiental entre 2024 e 2025.
Além disso, cerca de 1.500 docentes participam anualmente das formações continuadas promovidas pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc), e aproximadamente 600 escolas registraram ações e projetos ambientais ao longo de 2025.
Para o coordenador de Educação Ambiental da Seduc (CEAM), Mauro Tavares, a proposta representa uma mudança na forma como a educação ambiental é desenvolvida nas escolas. “A educação ambiental que desenvolvemos é contemporânea, crítica e contextualizada".
"Ela busca ampliar a compreensão dos estudantes sobre as múltiplas relações que envolvem o meio ambiente, considerando aspectos ecológicos, sociais, culturais, econômicos e políticos. O objetivo é contribuir para a formação de cidadãos capazes de compreender os desafios dos seus territórios e participar da construção de soluções”, afirma Mauro Tavares.
Os conteúdos trabalhados nas escolas abordam biodiversidade, recursos hídricos, mudanças climáticas, conservação florestal, justiça climática, consumo consciente, valorização dos conhecimentos tradicionais e impactos socioambientais presentes na região amazônica. A proposta também incentiva o desenvolvimento do pensamento crítico e o acesso a informações científicas qualificadas sobre questões ambientais.
Currículo conectado à realidade amazônica
A política estadual foi estruturada para que a educação ambiental esteja presente em toda a trajetória escolar dos estudantes. O componente é ofertado em todas as etapas da educação básica e integra uma proposta pedagógica que relaciona questões locais, regionais e globais.
Os materiais utilizados em sala de aula foram desenvolvidos pela própria rede estadual e dialogam com a realidade paraense. Os conteúdos valorizam conhecimentos produzidos na Amazônia, experiências de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais, além de abordar temas ligados à conservação da biodiversidade e às transformações ambientais observadas no estado.
Questões frequentemente presentes no cotidiano amazônico também fazem parte das discussões desenvolvidas nas escolas. Os estudantes são incentivados a analisar situações relacionadas ao uso dos recursos naturais, à geração de energia, aos impactos de grandes empreendimentos, ao desmatamento, à proteção dos rios e à busca por modelos sustentáveis de desenvolvimento.
Formação fortalece atuação dos professores
A implantação da política foi acompanhada por investimentos na formação dos profissionais da educação. Entre 2024 e 2025, cerca de 1.200 profissionais concluíram cursos de especialização em Educação Ambiental ofertados pela rede estadual.
Paralelamente, aproximadamente 1.500 professores participam anualmente das formações continuadas promovidas pela Seduc. As atividades incluem orientações sobre o uso dos materiais pedagógicos, aprofundamento de conteúdos ambientais e estratégias para desenvolver projetos dentro das escolas.
“A formação dos professores é uma das bases da política. Temos profissionais de diferentes áreas do conhecimento atuando com o componente, o que reforça a característica interdisciplinar da educação ambiental. Nosso objetivo é garantir apoio permanente para que esse trabalho seja desenvolvido com qualidade nos diferentes territórios do estado”, explica Mauro Tavares.
Projetos transformam conhecimento em ação
Os efeitos da política podem ser observados em diversas iniciativas desenvolvidas pelas escolas da rede estadual. As atividades envolvem hortas pedagógicas, campanhas de reciclagem, recuperação de áreas degradadas, produção de mudas, preservação de recursos hídricos, monitoramento ambiental, feiras científicas e ações voltadas à valorização dos saberes tradicionais.
Um dos exemplos está na Escola de Tempo Integral Graziela Moura Ribeiro, em Belém, onde estudantes participam do projeto “Horta Hidropônica Escolar – Semeando Conhecimento”. A iniciativa foi implantada com recursos do subprograma Meio Ambiente, Sustentabilidade e Clima, vinculado ao Programa Dinheiro na Escola Paraense (Prodep), e utiliza o cultivo hidropônico como ferramenta pedagógica para integrar conteúdos de Ciências, Biologia, Química, Matemática e Educação Ambiental.
A proposta conta com apoio técnico da Emater, responsável pela implantação de uma bancada de mini-hidroponia didático-pedagógica construída com materiais reaproveitados, como canos de PVC, madeira, tambor e motor de lavadora de roupas. A estrutura permite o cultivo de hortaliças sem agrotóxicos, utilizadas tanto nas atividades pedagógicas quanto para complementar a merenda escolar.
Segundo a diretora da unidade, Carmen Eunice Cruz Azevedo Noronha, a experiência aproxima os estudantes dos conteúdos trabalhados em sala de aula. “É um instrumento facilitador do ensino, onde o aluno tem a oportunidade de associar a teoria à prática da sala de aula. Tudo aquilo que ele aprende pode colocar em prática. No meu ponto de vista, é um laboratório vivo, onde o estudante acompanha o processo de plantio, crescimento e colheita, que ainda serve de subsídio para a nossa merenda escolar.”
Os estudantes acompanham todas as etapas do cultivo, desde a germinação das sementes até a colheita dos alimentos. O primeiro ciclo de produção contou com 28 mudas de alface já colhidas, além de novas mudas em desenvolvimento.
O professor responsável pela iniciativa, Márcio Costa, explica que a proposta surgiu para tornar o aprendizado mais participativo e conectado à realidade dos alunos. “O trabalho surgiu para transformar o ensino em algo mais prático, utilizando a horta como ferramenta pedagógica nas disciplinas de Ciências da Natureza e Educação Ambiental, além de trabalhar conteúdos de Matemática. Também buscamos promover a sustentabilidade, com economia de água e produção de alimentos saudáveis sem agrotóxicos.”
O protagonismo estudantil é um dos pilares da iniciativa. Por meio da figura do “Aluno Guardião da Horta”, os estudantes acompanham todas as fases do cultivo e assumem responsabilidades relacionadas à manutenção da estrutura e ao desenvolvimento das plantas.
A parceria com a Emater também fortalece a aproximação entre a escola e a agricultura familiar. O engenheiro agrônomo Emerson Penha, responsável pelo projeto da bancada hidropônica, destaca que a iniciativa vai além da produção de alimentos.
“O acompanhamento da Emater acontece em diferentes frentes, desde o apoio técnico até a articulação com agricultores familiares. Mais do que produzir alimentos, o projeto trabalha a consciência ambiental, sustentabilidade e desenvolvimento social dentro da escola.”
O principal fornecedor dos insumos utilizados na implantação da bancada é um agricultor familiar acompanhado pela Emater no distrito de Outeiro, referência em hidroponia na Região Metropolitana de Belém.
Para os estudantes, a experiência representa uma oportunidade de aprender de forma prática e desenvolver novas habilidades. “No começo eu tive dificuldade porque nunca tinha trabalhado com isso, mas fui muito acolhido pelo professor e pelos colegas. Com o tempo consegui me desenvolver melhor, me comunicar mais e aprender bastante”, relata Kaique Ruan, do 9º ano.
“Aprendi sobre cuidado, observação e responsabilidade. Essa iniciativa é importante porque oferece oportunidades para muitos alunos e ensina coisas que vamos levar para o futuro”, afirma Ana Clarice, do 7º ano.
“Eu consegui associar a teoria das aulas de Ciências com a prática dentro da horta. E o mais importante é saber que o que plantamos será utilizado na merenda escolar. Isso mostra que nosso trabalho tem um impacto real dentro da escola”, destaca Esmelinda Valentina, do 1º ano do ensino médio.
Estudantes assumem papel de protagonistas
O protagonismo estudantil é uma das diretrizes da política estadual de educação ambiental. A participação dos jovens é incentivada na elaboração, execução e acompanhamento das ações desenvolvidas pelas escolas.
Esse envolvimento ganhou visibilidade durante as Conferências Infantojuvenis pelo Meio Ambiente realizadas em 2025. Após as etapas municipais e estadual, cerca de 25 estudantes paraenses foram selecionados para representar o estado na etapa nacional realizada em Brasília.
A participação reforça uma das premissas da política: estimular os estudantes a identificar problemas, propor soluções e atuar como agentes de transformação em seus territórios.
Alcance e perspectivas
A política estadual já alcança todos os estudantes da rede pública estadual e segue avançando entre os municípios paraenses. Com a ampliação das adesões municipais, a expectativa é chegar a aproximadamente 1,5 milhão de estudantes impactados pelas ações de educação ambiental em todo o estado.
“Esperamos que todo esse processo se transforme em ações concretas dentro dos territórios. O objetivo é que os estudantes desenvolvam conhecimentos, atitudes e valores que contribuam para a construção de comunidades mais sustentáveis e para o fortalecimento da cidadania”, conclui Mauro Tavares.
Do currículo às atividades desenvolvidas nas escolas, a educação ambiental vem ocupando espaço crescente na rede pública paraense. O trabalho reúne formação docente, participação estudantil e projetos conectados à realidade amazônica, aproximando os estudantes das questões ambientais presentes em seus territórios e incentivando a construção de soluções a partir do contexto em que vivem.
Texto de Amanda Castro - Ascom/Seduc