Domingo, 31 de Maio de 2026
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‘Não falo só como docente, falo como sujeito Huni Kuĩ’, indígena chega à sala de aula como professor do Ifac

Incluir vozes e saberes ancestrais no ensino acadêmico faz parte da caminhada de Muru Inu Bake, que construiu uma ponte entre espaços que rarament...

Por: Editoração Fonte: Secom Acre
31/05/2026 às 14h55
‘Não falo só como docente, falo como sujeito Huni Kuĩ’, indígena chega à sala de aula como professor do Ifac
Foto: Reprodução/Secom Acre

Incluir vozes e saberes ancestrais no ensino acadêmico faz parte da caminhada de Muru Inu Bake, que construiu uma ponte entre espaços que raramente se encontram. Indígena do Povo Huni Kuĩ, aos 24 anos leva sua trajetória para a sala de aula no Instituto Federal do Acre (Ifac), em Cruzeiro do Sul, ampliando vozes historicamente silenciadas. A presença indígena em espaços institucionais ainda provoca mudanças importantes.

Mais do que uma conquista individual, a trajetória de Muru Inu reflete um movimento coletivo de acesso, permanência e transformação no ensino superior. Em abril, como professor de inglês, ministrou sua primeira aula e utilizou dinâmicas com jogos para estimular a participação dos alunos nas atividades em sala.

Formado em Letras Inglês pela Universidade Federal do Acre (Ufac), é um dos primeiros indivíduos Huni Kuin a integrar a docência federal. Para Muru, cujo nome civil é Clécio Ferreira Nunes, ocupar esse lugar é também questionar um cenário em que, historicamente, pessoas não indígenas falam sobre os povos originários a partir de um olhar externo.

Nascido em Rio Branco, Muru cursou todo o ensino médio na Escola Estadual Professor Pedro Martinello, no bairro Montanhês, onde contou com professores da Secretaria de Estado de Educação do Acre (SEE).

Do território à docência federal: aos 24 anos, Muru Inu Bake, nome indígena de Clécio Ferreira Nunes, adentra o quadro de professores do Ifac. Foto: arquivo pessoal
Do território à docência federal: aos 24 anos, Muru Inu Bake, nome indígena de Clécio Ferreira Nunes, adentra o quadro de professores do Ifac. Foto: arquivo pessoal

A percepção é ainda mais marcante quando lembra a jornada que percorreu. Ao longo de toda a sua formação, da educação básica à pós-graduação, não foi aluno de nenhum professor indígena. E entende que pode representar para outros indígenas exatamente aquilo que não teve.

“Estou na pós-graduação e, durante minha trajetória na educação, não tive um espelho. Mas agora isso mudou, pois me tornei um reflexo. Esse impacto irá além do ensino, pois minha presença mostrará aos estudantes indígenas que eles também podem ocupar esse espaço, em diferentes posições dentro das instituições”, destaca.

Professor Muru Inu Bake: “Para mim, essa trajetória vai além de uma conquista individual e cria novas possibilidades para outros”. Foto: arquivo pessoal
Professor Muru Inu Bake: “Para mim, essa trajetória vai além de uma conquista individual e cria novas possibilidades para outros”. Foto: arquivo pessoal

Confiante no percurso que vem desenvolvendo, Muru Inu diz: “Ocupar esse lugar é também estar em um espaço que historicamente nos foi negado, e que hoje a gente busca acessar, participar e transformar. Para mim, essa trajetória vai além de uma conquista individual e cria novas possibilidades para outros. A presença indígena transforma gradualmente o ambiente acadêmico, amplia o olhar de professores não indígenas e fortalece a representatividade, além de abrir caminhos para que mais estudantes se reconheçam nesses espaços”.

Pertencente à família linguística Pano, o idioma Hãtxa Kuin, que significa, “língua verdadeira”, é falado pelo Povo Huni Kuin, anteriormente denominado pelos brancos “Kaxinawá”. Presente no Acre e também em regiões do Peru e da Bolívia, esse conjunto de línguas integra a diversidade linguística da Amazônia. É nesse universo que se insere a trajetória de Muru.

Após a graduação, Muru seguiu na vida acadêmica e é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Letras: Linguagem e Identidade (PPGLI) da Ufac, pesquisando línguas e literaturas indígenas brasileiras contemporâneas, com foco na relação entre formação, identidade e vivência.

Nos últimos anos, o cenário dos povos originários no Acre passou por mudanças significativas. A criação da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas (Sepi) e a ampliação do acesso à universidade contribuíram para fortalecer a presença de indivíduos pertencentes aos povos originários do estado, no ensino superior.

A titular da Sepi, Francisca Arara, relembra a própria trajetória ligada à educação escolar indígena, pois se tornou pedagoga, formada pelo Curso Superior Indígena do Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul. A secretária destaca a mobilização de professores indígenas e de organizações da sociedade civil na criação da graduação, que faz parte de um esforço para que mais indígenas pudessem chegar ao lugar que hoje o Muru estar. A trajetória da titular da Sepi construiu um caminho para o futuro, um caminho de resistência que chega até o professor Muru.

“Nós batalhamos e criamos o curso, onde eu me formei”, relata. Hoje à frente da pasta, Francisca também aponta os avanços no acesso indígena ao ensino superior por meio das políticas de cotas na Ufac.

O modelo acreano é baseado em uma educação intercultural, bilíngue, específica e diferenciada, voltada à valorização da língua, do grafismo, da matemática, da ciência e da geografia dos povos originários.

Entre 2022 e 2026, os dados revelam avanço no número de ingressos indígenas, ainda que com oscilações ao longo do período analisado. Embora os números não mostrem toda a realidade vivida por essas populações, são dados que ajudam a perceber mudanças importantes em seu acesso à universidade e em sua presença o ensino superior acreano, conforme demonstra o infográfico abaixo, elaborado pela Ufac.

O Huni Kuĩ Muru trouxe para o debate reflexões sobre o papel da educação indígena na universidade, discussão que se soma à fala do escritor Daniel Munduruku: “Tudo é uma questão mesmo de compreensão, do que é formação e do que é educação. Vai formar professores indígenas para indígenas ou vai formar indígenas que sejam capazes de dialogar com sua própria pedagogia e fazer com que ela se adeque de uma maneira mais próxima à ancestralidade à qual aquele povo pertence?”.

Tanto Muru quanto Munduruku apresentam trajetórias emblemáticas, marcadas pela resistência indígena e pela ocupação de espaços historicamente negados aos povos originários, tornando-se referência para novas gerações.

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